quarta-feira, outubro 21, 2020
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Os efeitos da Cannabis são um tópico controverso há 250 anos

A legalização da cannabis para fins medicinais tem sido discutido em muitos países há anos e é ponto de discórdia por muito mais tempo do que o esperado. No México, no século 18, o sacerdote e cientista José Antonio Alzate y Ramírez fez campanha pelos efeitos curativos da planta, contra a posição da coroa espanhola e da Inquisição. A historiadora do Centro de Pesquisa Colaborativa de Culturas de Recursos da Universidade de Tubinga, na Alemanha, Dra. Laura Dierksmeier, examinou o debate público da época no México em seu estudo “Forbidden herbs: Alzate’s defense of pipiltzintzintlis”, publicado em 7 de julho na revista Colonial Latin American Review.

Em um artigo de jornal de 1772, Alzate defendeu a cannabis, que ele conhecia sob o nome de “Pipiltzintzintlis”, de seu próprio cultivo, atribuindo à planta benefícios médicos valiosos para o tratamento de tosse, icterícia, zumbido, tumores, depressão e muito mais. Também considerou a planta de cânhamo uma excelente matéria-prima para a produção de cordas para veleiros. A Inquisição Espanhola, por outro lado, via a cannabis como um alucinógeno, como um meio de se conectar com o diabo e, portanto, o havia banido, assim como muitas outras plantas psicoativas ou comportamentos que, segundo dizia, contradiziam os princípios cristãos.

José Antonio Alzate y Ramírez (1737-1799) tinha uma missão: queria levar a ciência e o conhecimento da natureza ao público mexicano. Ao longo de sua vida, foi editor de quatro jornais, membro do Royal Botanical Gardens em Madri e membro correspondente da Academia Francesa de Ciências.

As evidências de Alzate sobre os benefícios da cannabis medicinal variam de experiências pessoais, relatórios de indígenas e marinheiros á enciclopédias médicas. “O que é particularmente impressionante é a variedade de fontes do século 18 que apoiavam o consumo de cannabis medicinal”, diz Laura Dierksmeier. Alzate mencionou cientistas conhecidos da época, como o naturalista Jacques-Christophe Valmont de Bomare, o médico Michael Etmüller, o médico e cofundador da Sociedade Real de Londres, Thomas Willis, bem como os médicos Guy-Crescent Fagon e Engelbert Kämpf.

A historiadora também examinou outras fontes desse período que não foram citadas pelo pesquisador mexicano, porque ele não tinha acesso a elas ou não falava a língua. Por exemplo, o médico e botânico Jacobus Tabernaemontanus, que em seu Neuw Kreuterbuch, de 1588, aconselha as mulheres a usarem cannabis para aliviar a dor abdominal, ou o primeiro defensor conhecido de língua inglesa do uso medicinal de cannabis, Richard Hooke.

A defesa pública de Alzate da erva proibida expõe questões maiores debatidas na sociedade mexicana”, diz Laura Dierksmeier, avaliando o complicado papel do sacerdote-cientista. “Ele era um mediador incansável entre as autoridades da igreja e a sociedade civil, entre a Inquisição Espanhola e suas próprias observações científicas, entre cientistas e o público, e entre conhecimentos indígenas e europeus. Os métodos de Alzate eram europeus e típicos do Iluminismo, mas sua missão e o foco eram latino-americanos, tinha orgulho do ambiente natural do México e promoveu o uso de ervas indígenas, mesmo que isso significasse defendê-las da proibição da Igreja”, explica Dierksmeier.

O exemplo histórico mostra que a legalização da cannabis tem sido uma questão controversa há muito tempo. No entanto, os críticos da proibição foram ameaçados de exílio ou pena de morte. Os primeiros pesquisadores modernos assumiram grandes riscos ao publicar informações que pensavam servir ao público em geral. O próprio Alzate não teve que pagar por suas publicações com a vida, embora três de seus jornais tenham sido censurados e eventualmente interrompidos para silenciá-lo em público.

As conclusões do estudo podem ajudar a ampliar o atual debate sobre legalização e suavizar as frentes mais rígidasSegundo Alzate e os cientistas citados por ele, os benefícios da planta de cânhamo como material de construção ou planta medicinal superam os possíveis efeitos colaterais”, diz Dierksmeier. Como José Antonio Alzate y Ramírez escreveu: “Acho que demonstrei os benefícios do uso de Pipiltzintzintlis e, nas palavras dos teólogos, ele é ruim por que é proibido, não é proibido por que é ruim”.

Fonte: Smoke Buddies

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