quarta-feira, outubro 21, 2020
Home Brasil Estudo aponta que Canabidiol pode ajudar a impedir progressão da Epilepsia

Estudo aponta que Canabidiol pode ajudar a impedir progressão da Epilepsia

Uma pesquisa feita em modelos animais para epilepsia (ratos geneticamente selecionados para apresentarem os sintomas) mostrou que a administração crônica de canabidiol (CBD) conseguiu evitar a progressão da doença. Os resultados do estudo, realizado na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, apontam que o tratamento com essa  substância derivada da Cannabis sp. impediu o recrutamento de novas áreas cerebrais no processo que dá origem à epilepsia em novas partes do cérebro, evitando o aparecimento de crises límbicas (mais graves e associadas a estruturas do cérebro como hipocampo, amígdala e córtex) no modelo que imita o tipo de epilepsia mais frequente em humanos, que é a do lobo temporal.

O aluno de doutorado em Neurologia/Neurociências pela FMRP, William Lopes, é um dos pesquisadores responsáveis pelo trabalho. Segundo Lopes, o modelo genético utilizado foi a linhagem Wistar Audiogenic Rat (WAR), animais que vêm sendo selecionados pela sua maior predisposição às crises epilépticas. Os estudos são realizados no Laboratório de Neurofisiologia e Neuroetologia Experimental (LNNE), dirigido pelo seu orientador, o professor Norberto Garcia-Cairasco.

Os animais da linhagem WAR desenvolvem crises epilépticas quando expostos a estímulos sonoros de alta intensidade (120 decibéis) e, por esse motivo, as crises são denominadas “audiogênicas”. “Quando expostos a estímulos agudos, os animais apresentam crises controladas pelo tronco encefálico, chamadas tônico-clônicas e, quando expostos a estímulos crônicos, manifestam as crises límbicas, aquelas mais severas e semelhantes às crises epilépticas do lobo temporal que são vistas em pacientes com a doença”, explicou.

No estudo, o tratamento com canabidiol foi capaz de prevenir o surgimento das crises límbicas. Além disso, quando raramente ocorriam, as crises eram menos intensas. “O tratamento crônico conseguiu frear a progressão da doença, impedindo o recrutamento de novas áreas do cérebro e bloqueando as crises límbicas”, conclui o pesquisador.

Inicialmente, o efeito bloqueador foi observado a partir de análises no comportamento dos animais, sendo confirmada uma atenuação das crises. Outra verificação desse efeito foi por meio de uma técnica laboratorial que detectou, em tecidos cerebrais do animal, uma proteína específica, a FosB. Essa proteína se acumula e pode ser quantificada em neurônios ativados cronicamente como na situação característica das crises epilépticas.

Outra análise feita durante a pesquisa concentrou-se na avaliação de como as crises crônicas e o tratamento com canabidiol (CBD) podem estar modulando, nos próprios neurônios, a expressão de receptores canabinoides do tipo 1 (CB1). O CBD participa da modulação de diversos processos cerebrais através de muitos mecanismos. Um deles é o do sistema endocanabinoide, composto pelos canabinoides endógenos (produzidos pelo próprio corpo) e seus receptores clássicos: CB1 e CB2.

Segundo Lopes, alguns estudos mostram que, em pacientes com crises crônicas, os receptores CB1 têm sua expressão alterada em algumas áreas do cérebro, como aquelas importantes para a ocorrência das crises límbicas. O resultado observado na pesquisa foi que o tratamento com canabidiol atenuou o aumento da expressão dos receptores CB1 nas crises crônicas.

O canabidiol é uma substância que se apresenta como alternativa interessante para o estudo da epilepsia em modelos pré-clínicos, mas que hoje já está sendo utilizada em pacientes. De acordo com Garcia-Cairasco, “modelos pré-clínicos nos dão vantagens por antecipar possíveis efeitos, eventualmente até os efeitos colaterais, que seriam observados nos pacientes”.

No caso desta pesquisa, outro aspecto positivo é o fato do modelo conseguir imitar, mesmo que parcialmente, a complexidade da situação dos casos clínicos. “Além da susceptibilidade às crises epilépticas, os animais da linhagem WAR apresentam outras doenças neuropsiquiátricas, como aumento de ansiedade e características de comportamentos depressivos, entre outros. Há demonstrações claras de que pessoas com epilepsia também apresentam outros transtornos neuropsiquiátricos associados”, explicou o professor Norberto Garcia-Cairasco.

Uma extensa revisão acerca das pesquisas internacionais com canabidiol em modelos experimentais de epilepsia foi publicada em 2020, tendo Willian Lopes como primeiro autor e o professor Garcia-Cairasco como autor correspondente, na conceituada revista científica Neuroscience and Biobehavioral Reviews, onde são abordados  os efeitos anticonvulsivantes do CBD, por meio de caracterização comportamental, em menor escala (ainda inicial) as abordagens eletroencefalográficas, e finalmente a busca por explicações de mecanismos de ação, devido a uma variedade enorme de possíveis vias e alvos por meio dos quais o canabidiol atuaria.

Em 2019, os dados do doutorado de William Lopes também foram apresentados em um Simpósio do Congresso da Society for Neuroscience, o maior evento mundial de neurociência, em Washington D.C., e no Congresso da American Epilepsy Society, em Baltimore.

O Laboratório onde William desenvolveu a pesquisa possui vínculo com o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Medicina Translacional (INCT), que recebe apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que é o grupo líder das pesquisas com canabidiol no cenário brasileiro e internacional.

Fonte: Jornal USP

1 COMMENT

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here

- Advertisment -

Most Popular

Caminhada pela cannabis medicinal aconteceu em campo grande, ms, na sexta-feira 15 de novembro

Aconteceu em Campo Grande, na sexta-feira, 15 de novembro, a 1ª Caminhada Internacional pelo dia Mundial da...

Nate Díaz fumou cannabis na frente de seus fãs antes de sua última apresentação

No UFC 241, do dia 17 de agosto, o octógono contou...

Canabidiol ameniza efeitos colaterais da quimioterapia

Estudos indicam que medicamentos à base de canabidiol (CBD) podem ser aliados no tratamento do câncer, amenizando efeitos colaterais da quimioterapia. A...

As farmácias de Buenos Aires podem importar óleo de cannabis para pacientes com epilepsia refratária e receita médica

As farmácias da província de Buenos Aires assinaram um acordo para começar...

Recent Comments